Milhares de devotos se reúnem em Assis Brasil para homenagear Santa Raimunda do Bom Sucesso

Foto: Cedida
Muitos devotos percorrem parte do trajeto a pé, seguindo por ramais e varadouros em meio à floresta. Alguns carregam imagens, velas e objetos como forma de cumprir promessas

Uma estrada de chão, quilômetros de caminhada pela floresta e uma fé que atravessa gerações. Foi assim que milhares de pessoas se reuniram neste sábado, 15 de agosto, em Assis Brasil, no interior do Acre, para participar da tradicional manifestação de fé em homenagem a Santa Raimunda do Bom Sucesso, também conhecida como Alma do Bom Sucesso.

A celebração acontece todos os anos nesta data e reúne moradores do Acre e peregrinos que chegam de diferentes regiões do Brasil, além de devotos vindos do Peru e da Bolívia. A manifestação, que nasceu entre as comunidades seringueiras da região, transformou-se em uma das maiores expressões de religiosidade popular do Alto Acre.

Foto: Cedida

O destino dos peregrinos é a pequena capela localizada na região do Seringal Icuriã, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, a aproximadamente 40 quilômetros da sede de Assis Brasil. Não é uma peregrinação simples.

Viagem Brasil

Muitos devotos percorrem parte do trajeto a pé, seguindo por ramais e varadouros em meio à floresta. Alguns carregam imagens, velas e objetos como forma de cumprir promessas. Outros chegam para agradecer por graças que, segundo seus relatos, foram alcançadas por intercessão de Raimunda.

A celebração deste sábado contou com a participação do padre responsável pela condução do momento religioso, que acompanhou os fiéis durante a programação.

Uma santa que não foi canonizada

Apesar de ser chamada de santa pelos milhares de devotos, Raimunda não é uma santa canonizada oficialmente pela Igreja Católica. Trata-se de uma figura de devoção popular, cuja história foi preservada principalmente pela tradição oral das comunidades da região.

Segundo os relatos transmitidos ao longo das gerações, Raimunda era uma mulher simples, ligada à vida dos seringais. Grávida, ela teria acompanhado o marido durante o trabalho na floresta e acabou morrendo durante o parto, sendo sepultada no próprio local onde teria falecido.

O ponto onde seu corpo foi enterrado passou a ser considerado sagrado pelos moradores. Com o passar dos anos, começaram a surgir relatos de graças alcançadas e pedidos atendidos, fazendo crescer a devoção.

Foi assim que o local, perdido em meio à floresta amazônica, transformou-se em destino de peregrinação.

Uma devoção que ultrapassou a fronteira

A força da manifestação impressiona principalmente pela dimensão que alcançou.

Em 2025, a Prefeitura de Assis Brasil informou que a romaria reuniu mais de 6 mil pessoas, com a presença de brasileiros, bolivianos, peruanos e peregrinos de outros países.

A presença de peruanos é particularmente significativa. Em anos anteriores, registros da peregrinação mostram que muitos devotos atravessam a fronteira e chegam ao município em carros, vans e outros veículos para participar da caminhada até a capela.

Foto: Cedida

O que começou como uma manifestação de fé entre seringueiros acabou se transformando também em um fenômeno cultural e turístico para o município.

A própria Prefeitura de Assis Brasil passou a tratar a caminhada como um dos principais eventos do calendário local, preparando estrutura de apoio, segurança, limpeza e logística para receber os peregrinos.

Fé, floresta e tradição

Existe algo particular na devoção a Santa Raimunda do Bom Sucesso.

Ela não está associada a uma grande igreja, a uma cidade histórica ou a um monumento construído em área urbana. Seu santuário está dentro da floresta.

O caminho até a capela faz parte da própria experiência religiosa. Para muitos devotos, caminhar quilômetros pelo ramal e pelo varadouro não é apenas uma forma de chegar ao destino. É parte da promessa.

Foto: Cedida

É nesse cenário que, todos os anos, Assis Brasil recebe uma multidão de pessoas dispostas a enfrentar o calor, a poeira, a lama e o cansaço em nome da fé.

A tradição também ganhou atenção de pesquisadores e religiosos que estudam as manifestações de fé popular da Amazônia e a relação entre religiosidade, floresta e cultura dos seringueiros.

Uma tradição que movimenta Assis Brasil

Durante os dias que antecedem a caminhada, a movimentação aumenta no município.

Comerciantes, vendedores, transportadores e prestadores de serviços recebem um fluxo incomum de pessoas. A chegada de peregrinos brasileiros e estrangeiros transforma a rotina da pequena cidade de fronteira.

Foto: Cedida

Para o poder público, a manifestação deixou de ser apenas uma celebração religiosa e passou a representar também uma oportunidade de fortalecimento do turismo e da economia local.

Em 2026, a Prefeitura voltou a organizar a estrutura para receber os peregrinos e destacou a participação de fiéis do Brasil, Peru e Bolívia.

Viagem Brasil

No fim, porém, os números e a movimentação econômica explicam apenas uma parte do fenômeno.

Para quem percorre os quilômetros até o Seringal Icuriã, o que importa é chegar.

Alguns vão pedir.

Outros agradecer.

Muitos vão cumprir uma promessa.

E todos carregam consigo uma história que ajuda a explicar como uma mulher desconhecida, sepultada há décadas no meio da floresta, conseguiu transformar um pedaço isolado da Amazônia em destino de uma das maiores manifestações de fé popular do Acre.

Neste sábado, mais uma vez, a floresta ficou pequena para tanta gente.

Foto: Cedida
Facebook
WhatsApp
Print
Telegram
Email