Embrapa constata melhora na qualidade do leite em Rondônia

Pesquisa constatou redução do nível bacteriano. Estado, que já é um dos maiores produtores do país, agora busca excelência na qualidade. – Foto: Reprodução

Um esforço conjunto entre a pesquisa científica da Embrapa, produtores, técnicos e o setor industrial transformou a pecuária leiteira em Rondônia. Estudos iniciados em 2013 revelam que a qualidade do leite produzido no estado e entregue às indústrias lácteas deu um salto significativo: a conformidade dos tanques com o limite de contagem bacteriana do leite (CPP – contagem padrão em placas) no período chuvoso subiu de 36% em 2015 para 72,6% em 2022. Essa evolução é reflexo de uma redução significativa da média da contagem bacteriana, que caiu 69,1% no período das águas e 76,7% na seca. Na análise, foram avaliados 566 tanques em 2015 e 536 em 2022, localizados nas principais microrregiões do estado. 

Os dados indicam maior efetividade na execução do Programa Nacional da Qualidade do Leite (PNQL) com melhor adequação e conformidade de práticas e processos da cadeia produtiva leiteira para atendimento a requisitos higiênico-sanitários estabelecidos em normativas.

Segundo Juliana Alves Dias, a pesquisadora da Embrapa que coordenou os estudos, o avanço das ações foi motivado pela atualização da legislação, como as Instruções Normativas 76 e 77, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2019. Também é resultado de um processo de sensibilização de todos os elos da cadeia produtiva, aliado a ações integradas de transferência de tecnologias. “Nesse contexto, os estudos e as ações convergiram para dar subsídios ao estado. Trabalhamos na identificação dos principais desafios e no direcionamento de estratégias específicas, mostrando que a parceria entre o setor público e privado é o caminho para a efetividade das ações”, explica.

As pesquisas, que seguem em execução, geraram tanto dados sobre a CPP como diagnósticos. Apontaram fatores de risco e indicaram soluções para superar desafios e melhorar a qualidade do leite no estado, de modo a auxiliar gestores e produtores locais a atingirem os padrões sanitários exigidos pela legislação brasileira. Esse conjunto de resultados está descrito no documento técnico “Contribuições da pesquisa e transferência de tecnologia à execução do Programa Nacional de Qualidade do Leite (PNQL) em Rondônia”, publicado pela Embrapa. A iniciativa está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 12 proposto pela ONU, que visa garantir padrões sustentáveis de produção e consumo.

Desafios logísticos e higiênico-sanitários

A cadeia produtiva do leite em Rondônia envolve aproximadamente 26 mil famílias, com predomínio de pequenos e médios produtores. O estado é o 11º maior produtor de leite no Brasil com uma produção, em 2024, de 619 milhões de litros, o que representa a maior produção da Região Norte, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Para realizar esses diagnósticos e mapear os fatores de risco reais no campo, a ciência saiu do laboratório. Os estudos epidemiológicos e de análise espacial consideraram indicadores higiênico-sanitários do leite:contagem bacteriana, contagem de células somáticas, patógenos da mastite bovina e a ocorrência de resíduos químicos. Tais estudos demonstraram que o maior desafio regional era o atendimento ao limite de contagem bacteriana por falhas na adoção de boas práticas de ordenha e na logística de refrigeração do leite.

Um ponto crítico identificado foi a presença de “carretinhas” — transporte intermediário do leite do produtor até o tanque coletivo. Atrasos no resfriamento e falhas na higienização dos latões utilizados nesse trajeto elevaram a contagem bacteriana. Atualmente, 78% dos produtores de Rondônia estão vinculados a tanques coletivos. Como a pesquisa demonstrou que tanques com mais de cinco produtores apresentaram maior risco de contaminação, é preciso que a indústria reavalie essa estratégia.

De acordo com Juliana Dias, falhas no manejo sanitário das propriedades aumentaram os riscos de mastite no rebanho. Um dado que chama a atenção é que rebanhos com maior grau de tecnificação — como aqueles que utilizam ordenha mecânica e animais especializados — apresentaram maior probabilidade de ocorrência de mastite bovina. O alerta é reforçado pelo monitoramento temporal da contagem de células somáticas (CCS) em leite de tanques vinculados às indústrias: a comparação entre os dados de 2015 e 2022 demonstrou uma tendência de aumento na média de CCS em todo o estado. “Esses resultados indicam que o setor enfrenta novos desafios que exigem ações mais efetivas de prevenção e controle da saúde do úbere, especialmente em rebanhos mais tecnificados”, destaca a pesquisadora. 

Para se chegar a esse diagnóstico, além do monitoramento temporal e espacial do leite de tanques da indústria, foram realizados dois estudos em nível de propriedades: em 2013, com a avaliação de 267 rebanhos de 11 municípios da microrregião de Ji-Paraná, e em 2018/2019, com 178 rebanhos vinculados às agroindústrias familiares de seis microrregiões do estado.  

Projeto piloto avalia impacto das boas práticas nas propriedades 

A pesquisa em Rondônia permitiu concluir que a adoção de práticas simples é a chave para a transformação da qualidade do leite no estado. Em 2017 e 2018, quatro propriedades que representavam as condições de produção prevalentes no estado foram selecionadas para o estudo de validação dos protocolos de higiene. Com base em estudos anteriores, chegou-se aos perfis dessa amostra, que inclui diferentes cenários: da ordenha manual em piquetes abertos ao sistema mecânico “balde ao pé”.

O objetivo, segundo a pesquisadora Juliana Dias, foi rastrear os principais pontos de contaminação por bactérias na ordenha, como baldes, latões, tetos, ordenhadeiras, água de uso e mãos dos ordenhadores, assim como propor práticas adaptadas às condições regionais. Ao implementar o conjunto de boas práticas — que inclui o preparo do úbere e a limpeza rigorosa de baldes, latões e equipamentos —, as propriedades alcançaram um resultado relevante: a carga bacteriana do leite total reduziu em mais de 95%, independentemente do nível tecnológico da propriedade.

Para que o conhecimento da pesquisa chegasse até o campo, vídeos educativos, documentos orientadores e notas técnicas foram elaboradas para auxiliar técnicos, produtores e indústrias na implementação dessas práticas no campo. Além disso, os resultados e as recomendações dos estudos foram apresentados em eventos como cursos, treinamentos, oficinas e palestras técnicas em todo o estado. Foram mais de cinco mil pessoas impactadas pelas ações de pesquisa, capacitações, oficinas e palestras realizadas em 42 municípios, ou seja, cerca de 80% dos municípios de Rondônia.

(Texto extraído da Agência de Notícias da Embrapa)

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